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21/05/2018

Nós e Roger Waters, aqui e agora (Lisboa)



Roger Waters (Full) Altice Arena,Lisboa,20 Mai 2018

O alinhamento foi composto na sua maioria por canções dos Pink Floyd da década de 1970, mas, no óptimo concerto que o seu antigo baixista deu domingo na Altice Arena (haverá um segundo esta segunda-feira), elas serviram para agir no presente. "Fuck the pigs!", exortou.

Fonte: Jornal Público - Ìpsilon
MÁRIO LOPES 21 de Maio de 2018,

Time (2018-05-20)


Foi logo no final da primeira canção que Roger Waters, 74 anos que o corpo seco e a altura imponente não denuncia, caminhou até a um dos extremos do palco. Acenou ao público e ergueu o punho em sinal de união, de comunhão, de vitória. Acabávamos de ouvir Breathe, em interpretação imaculada no seu onirismo e melancolia, pela extraordinária banda que acompanha Waters. Ouvimos nela os versos que servem de mote àquilo que leva o antigo baixista dos Pink Floyd a querer continuar em palco, a querer continuar a tocar a música que criou ao longo das últimas cinco décadas. Aquilo que o leva a erguer o punho, no início, a bater com a mão no peito, no final, agradecendo emocionado ao público que lotou a Altice Arena este domingo, no primeiro dos dois concertos portugueses da digressão Us + Them.

The Great Gig in The Sky


Roger Waters
Lisboa, Altice Arena
Domingo, 20 de Maio
Lotação esgotada


Os tais versos, então. Dizem assim: “Run, rabbit, run / dig that hole, forget the sun / And when at last the work is done / Don’t sit down, it’s time to dig another one” – presos na máquina, continuamos, dia após dia, prisioneiros de algo que nos ultrapassa. A música aponta uma fuga e Roger Waters, 74 anos, acredita que a música pode acordar-nos, despertar-nos. Quando tudo terminou duas horas e meia depois, às 0h10, os confetti que caíram sobre a multidão tinham uma palavra inscrita: “Resist” – sim, é por acreditar que a música pode ser isso, resistência, que Roger Waters continua. Ao longo do concerto, o passado fez-se presente e entre Dogs e Pigs (three different ones), as canções que abriram a segunda parte do concerto, ambas incluídas originalmente em Animals, álbum de 1977, viu-se o presidente americano travestido de meretriz, em corpo de porco, com capuz do Ku-Klux-Klan, como bebé irritadiço, como figura de intervenção pop art satírica. Enquanto aquele boogie rock, cow-bell incluído, fazia o seu caminho, levitava por cima de nós esse clássico Floydiano que é o gigantesco porco insuflável – no dorso, a frase “mantém-te humano”, escrita em português e em inglês.

Pigs (Three Different Ones) 2018-05-20

O concerto de Roger Waters foi um concerto que aliou o impacto directo de uma banda em palco com a ambição cénica que desde muito cedo norteou a criatividade do músico. Enquanto o porco insuflável levitava sobre o público, já tinha descido alguns metros acima dele uma estrutura replicando a fábrica da capa de Animals, em cuja fachada foram, a partir de então, projectadas imagens da banda, as imagens de Trump, imagens de cenários de guerra, palavras de ordem incitando à acção. Exemplar, neste concerto, foi a forma como se conjugaram as duas vertentes, harmonizando-se sem que uma subjugasse a outra. Sentimo-lo desde o início.

A esmagadora maioria do concerto compôs-se de clássicos dos Pink Floyd, mas ouvi-los e, principalmente, ouvi-los interpretados daquela forma, com intenção, bom gosto e uma fidelidade aos originais que não diminuía o seu impacto, não foi apenas homenagem a uma obra fulcral na história da música popular urbana. Aqui voltamos ao início do texto, ao Roger Waters de punho erguido, ou ao Roger Waters que cantou Welcome to the machine, a canção distópica de Wish You Were Here, com esgar dramático, ameaçador, adequadíssimo àquele pedaço rock cyborg apocalíptico que soa ainda mais profético em 2018. É tudo uma questão de contexto: e estas canções, escolhidas para dar corpo ao tema da digressão – a necessidade de união, empatia entre todos e reacção perante a barbárie da guerra, da finança, dos crimes de Estado, da xenofobia —, cresceram imponentes perante nós (mesmo se, por vezes, de forma paradoxal, Waters parece agir como líder a comandar as massas num comício, o que é contraditório com a ideia de liberdade de pensamento e liberdade individual que conduz o concerto).

Dogs (2018-05-20)


Roger Waters alternou entre os momentos em que agarrou o baixo e aqueles em que, de microfone na mão, percorria o palco cantando, mimando o que o guitarrista Jonathan Wilson cantava (coube-lhe as partes originalmente cantadas por David Gilmour) ou incitando o público a reagir. O líder foi acompanhado por uma banda onde se destacava o baterista Joey Waronker, de um virtuosismo justo para as canções, nunca exibicionista, o guitarrista Dave Kilminster, fidelíssimo à escola Gilmour, ou o coro formado por Holly Laessig e Jess Wolfe, membros da banda americana Lucious e que, entre o dueto em The great gig in the sky ou os momentos em que pegaram em baquetas e, com dois timbalões de chão, acentuaram o tom marcial de um par de canções, nunca foram personagens secundárias em palco. Com este Roger Waters determinado e uma banda hábil e entusiasta, o concerto fez sobressair o melhor que tem esta música.

Dividido em duas partes, com um intervalo de vinte minutos a separá-las, o concerto de foi uma extraordinária prova de vida. Ouvimos o space-rock tumultuoso de One of these days, guiado por aquela titânica linha de baixo, ouvimos a cristalina Time e The last refugee, uma das canções do recente álbum de originais de Waters, Is This The Life We Really Want? (2017), e vimos os jovens do Centro Social Comunitário da Flamenga, em Lisboa, acompanharem Another brick in the Wall. Primeiro de cabeça tapada por capuz e vestindo fatos laranja de prisioneiros, depois de rosto destapado, dançando livres nas t-shirts negras onde se lia a palavra-chave: “Resist”.



No início da segunda parte do concerto, a banda, onde se inclui também, por exemplo, Bo Koster, teclista dos My Morning Jacket, reuniu-se em volta de uma mesa onde eram servidas flutes de champanhe. Vestiam máscaras de porcos com várias expressões, suínos demasiado humanos como no Triunfo dos Porcos de Orwell. Grunhiam e brindavam e um deles (Waters) ergueu um cartaz – “Pigs rule the world”. Acto contínuo, libertou-se da máscara e, rosto humano encarando-nos de frente, ergueu outra palavra de ordem: “Fuck the pigs!”. O mote sugerido desde início concretizava-se. Do diagnóstico ao combate.

Wish You Were Here (2018-05-20)

Viriam então depois as longas suites de Dogs e Pigs (three different ones), chegaria a intemporal Money e a obrigatória Us and them.The lunatic is on the grass, frase inicial de Brain damage, anunciou a caminhada para o final com Eclipse, enquanto se formava no ar, em laser, o icónico prisma de Dark Side of the Moon. O encore chegaria, depois da apresentação da banda, depois das vénias, com palavras contra a intervenção e política israelita na questão palestiniana. Depois, discursou sobre como apenas o acto de amar pode abrir brechas na barreira erguida entre nós e os outros. Wait for her, Oceans apart, Part of my died, pedaços de folk acústica que encerram o último álbum a solo, serviram de antecâmara para a despedida com Confortably numb, cantada por Jonathan Wilson, dono de uma muito respeitável carreira a solo (“o hippie da banda”, como apresentado por Waters). Como aconteceu mais vezes ao longo do concerto, foi acompanhada em coro pelo público.

Já toda a banda abandonara o palco e Roger Waters lá continuava. Punho erguido, mão batendo no peito. É por isto que ele, 74 anos, continua em palco. Acredita que tem razão. Acredita que a sua música faz acreditar. Acredita nela. Us + Them, verdadeiramente.

Welcome to the Machine (2018-05-20)

Another Brick in the Wall (2018-05-20)




20/05/2018

Maestro Karabtchevsky: "Pink Floyd deixou uma música atemporal para todas as idades e gerações"


Karabtchevsky é fã de rock

O maestro Isaac Karabtchevsky falou sobre o concerto com o repertório do disco The Dark Side of the Moon, que completa 45 anos em 2018.

O Pink Floyd ganha uma homenagem da Orquestra Petrobras Sinfônica, em novembro, no Vivo Rio, na capital carioca (veja serviço abaixo). O maestro Isaac Karabtchevsky vai reger o concerto com o repertório do disco The Dark Side of the Moon, que completa 45 anos em 2018.

A apresentação contará com mais de 50 músicos e faz parte da série Álbuns, que já prestou tributos aos discos Thriller (Michael Jackson) e Ventura (Los Hermanos).

Karabtchevsky, diretor artístico e regente titular da orquestra, confirma que também é fã de rock.

— Tenho um carinho especial pelas bandas nacionais dos anos 80, entre elas, o Barão Vermelho, que tive o prazer de reger na Praça da Apoteose (Rio). E os Beatles sempre foram uma influência para mim. O calor de um show de rock é emocionante!

O maestro de 83 anos não economiza elogios ao ícone britânico Pink Floyd.

— O álbum do grupo é, definitavamente, um dos maiores discos da história do rock. E a banda deixou uma música atemporal para todas as idades e gerações.

Karabtchevsky afirma que o rock dos britânicos é operístico. 

— A banda se aproxima muito do universo clássico. Dark Side possui claramente três movimentos, fechando com a belíssima Eclipse. Os sintetizadores, as melodias de voz e os teclados de Rick Wright criam um ambiente magnífico. E as letras me remetem a óperas, ainda mais Brain Damagee sua inspiração em Syd Barrett (primeiro guitarrista do grupo). É uma honra fazer parte dessa nova leitura de um álbum tão envolvente.

A ideia da orquestra fez tanto sucesso que dois dias de evento (8 e 15) se esgotaram rapidamente, fazendo com que a produtora abrisse uma data extra, no dia 9 do mesmo mês. Os convites para o terceiro espetáculo começam a ser vendidos no começo de junho. A produção ainda não sabe se haverá shows em outras cidades, além do Rio.




Serviço:

Quando: Dias 8 (esgotado), 9 (a partir de junho) e 15 (esgotado) de novembro, às 21h
Onde: Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85 - Flamengo, Rio)
Ingressos: eventim.com.br
Contato: (21) 2272-2901
Classificação: Livre
Quanto: De R$ 90 (setor 4, inteira) a R$ 280 (camarote B, inteira)


Fonte: Daniel Vaughan, do R7

19/05/2018

O homem que faz música dos pesadelos (Lisboa)




Diário de Notícias - Lisboa

De volta a Portugal, Roger Waters, o veterano Pink Floyd, assenta os concertos na época dourada do grupo que liderou. Pelo meio, vai encaixando alguma da sua produção recente, mas os clássicos dominam as duas apresentações em Lisboa 

Está rendido às evidências, o sempre teimoso e inquieto Roger Waters, do alto dos seus 74 anos: para aguentar hoje uma digressão transcontinental, não pode mesmo dispensar o seu glorioso passado à frente dos Pink Floyd. Porque é nesse som e nessas canções que o grande público se revê, atravessando gerações e latitudes, pesem as boas críticas recebidas pelo álbum Is This The Life We Really Want?, lançado no ano passado, quinto de uma carreira a solo que, em matéria de novidades, se manteve silenciosa durante uma dúzia de anos. Tudo o que não é Pink Floyd nas escolhas para os concertos de Lisboa (e para o resto dos espetáculos, bem entendido) vem desse disco, com quatro presenças garantidas: Déjà Vu, The Last Refugee, Picture That e Smell The Roses. Há mais três num rol de possibilidades, dependendo das voltas ao alinhamento que Waters, mais sete instrumentistas e duas cantoras, derem por cá, já que nalguns casos antecedentes, também apareceram Wait For Her, Oceans Apart e Part Of Me Died. 

Ainda assim, como o próprio protagonista tinha prometido no lançamento da atual tournée, significativamente intitulada Us + Them Tour, o que nos remete de imediato para uma das canções do mítico The Dark Side Of The Moon, quatro quintos da matéria-prima chegarão do "antigamente", mais concretamente da década de maior pujança de Waters com os Pink Floyd, os anos 70, em que extravasaram as fronteiras do "rock sinfónico", do experimentalismo e do psicadelismo para conquistarem em definitivo as massas, que passado todo este tempo, continuam a idolatrar a produção dessa era. Rendeu quatro discos fundamentais: o já referido Dark Side que, com exceção dos dois instrumentais (On The Run e Any Colour You Like) será integralmente escutado pelas plateias lusitanas; logo a seguir, Wish You Were, dedicado ao primeiro líder dos Pink Floyd, Syd Barrett (1946-2006), afastado da banda na sequência de comportamentos que acabaram num internamento psiquiátrico - além do tema-título, não deverá faltar a abordagem a Welcome To The Machine; em Animals, Waters ensaiava uma divisão da sociedade (vivia-se a era pré-Margaret Thatcher) em cães, porcos e ovelhas, assim mesmo - os dois primeiros, Dogs e Pigs, também vão figurar na longa viagem promovida pelo músico britânico; The Wall, o grande manifesto dos Floyd, não poderia faltar em diversas escalas, sabendo-se que The Happiest Days Of Our Lives, Another Brick In The Wall - Part 2 (que vai contar com uma inédita contribuição nacional, como pode ler-se à direita), Another Brick In The Wall - Part 3 e Comfortably Numb são incontornáveis, havendo ainda a hipótese (no encore) de se lhes juntar Mother. Quase de forma inesperada, Waters vai ainda mais longe, acrescentando à set list uma canção do longínquo álbum Meddle (1971), a belíssima One Of These Days. No total, se as durações em palco forem próximas das que se registam nos discos originais, é caso para prever umas duas horas muito bem passadas, naquilo que, como se confirma pelas escolhas, poderia corresponder a uma antologia do melhor dos Pink Floyd. 

Do crescimento à autocracia 

Trata-se, em suma, de um reconhecimento, quase rendição, de Roger Waters face ao entendimento popular de quais são os momentos maiores como criador musical. Ele foi, pelas composições, pela aventura, pelas inovações (e não só musicais, se pensarmos na teatralidade dos espetáculos ou no grafismo das capas do grupo), o maior responsável pelo crescimento dos Pink Floyd, suprindo - com vantagem, reconheça-se - a orfandade que se poderia ter abatido sobre a banda depois da queda de Syd Barrett, até aí líder incontestado e força motriz dos primeiros singles e do álbum de estreia, The Piper At The Gates Of Dawn, de 1967. No final desse ano, foi Waters quem alegadamente convidou o guitarrista David Gilmour a tornar-se no quinto Floyd, de início com funções de reforço instrumental. Em janeiro de 1968, Barrett foi remetido para o posto exclusivo de autor, deixando de integrar o elenco de palco. Em abril, foi afastado de vez, o que se refletiu logo no disco seguinte, A Saucerful Of Secrets, lançado em junho: se ainda havia uma composição de Barrett a fechar o trabalho, não ficavam dúvidas de que Roger Waters tinha assumido a liderança. Essa tomada de poder foi ficando cada vez mais à vista, não só pela percentagem de autorias como pela definição de rumo dos Pink Floyd, com o salto conhecido a partir de 1973 e de The Dark Side Of The Moon. Roger Waters era, ainda, o homem a escutar para perceber as motivações e os objetivos do grupo. 

A história descamba - com algum pesar para os fãs - depois de The Wall. Chocado com Margaret Thatcher e com a guerra das Malvinas, Waters decide voltar ao tema dos conflitos (e será conveniente não perder de vista que ele que ele perdeu o pai na II Guerra Mundial), recuperando canções que tinham sido excluídas anteriormente e escrevendo outras novas para aquilo que viria a ser The Final Cut, lançado em março de 1983. Todas as autorias são de Roger - as propostas de David Gilmour foram chumbadas sumariamente - e um dos fundadores dos Floyd, o teclista Richard Wright (1943-2008) é excluído das gravações. Por outras palavras, David Gilmour e o baterista Nick Mason, também ele parte do elenco inicial, passavam a ser "empregados" de Waters que, de seguida, se convence que os Pink Floyd eram um rio seco, estavam esgotados. Mesmo assim, a disputa pelo nome do grupo chega - imagine-se - ao supremo tribunal britânico. Gilmour (que virá a ser o terceiro líder da história da banda) e os parceiros ganham a possibilidade de prolongar a existência da banda, enquanto Waters parece mais interessado na carreira a solo, baseada nos álbuns The Pros and Cons of Hitch Hiking (1984) e Radio K.A.O.S. (1987). De alguma forma, o tempo haveria de desenganar o músico, sendo hoje evidente que a herança dos Floyd continua a valer como o seu maior ativo.  

Homem de causas  

Roger Waters tem três filhos e casou por quatro vezes, confessando-se, à época do lançamento de Is This The Life We Really Want? "possuído por uma nova paixão". Por mais que esse novo amor tenha pesado na conceção do disco, ele foi sempre visto - e tal nunca foi desmentido pelo autor - como um libelo anti-Trump e como uma preocupação com os refugiados de todas as espécies.  

Se olharmos para a obra dos Pink Floyd, sente-se muitas vezes um empenhamento social e uma clara vontade de intervir. Waters esteve, ainda, à frente de um grande elenco - de Joni Mitchell a Van Morrison - que tocou The Wall em Berlim a 21 de Julho de 1990, numa celebração da queda do Muro, escassos oito meses depois de esta acontecer. É ativista de várias causas, com destaque para o seu apoio aos palestinianos, que já lhe valeu acusações de antissemitismo e perda de patrocínios (do Citibank e do American Express). Nesse aspeto, parece não ter emenda - e, se calhar, ainda bem. Na música, Roger Waters fez o que tinha a fazer e, para muitos, chegou bem perto do génio que, agora, legitimamente, faz render.

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